Tributo a Armando Fajardo

Muito já se falou e escreveu que os valores do leonismo, tanto éticos como históricos e culturais, estão em sua memória. Na verdadeira história do nosso movimento a memória deve falar mais alto. É ela que alimenta os princípios que se acumularam durante a existência do Lions, quando se estabeleceram regras de convívio, normas de comportamento e tudo mais aquilo que foi sedimentado ao longo dos anos. Quem dispensa a memória está aniquilando nossos valores. Se não cuidarmos da nossa memória, quem garantirá a preservação da nossa história?

E quando falamos em memória não podemos olvidar a inesquecível figura daquele que trouxe o leonismo para o Brasil: Armando Fajardo, nosso Leão no 1. Falar de Armando Fajardo é falar da própria história do leonismo brasileiro!

Historiadores do nosso movimento tem cantado em prosa e verso a vida e a atuação de Fajardo na consolidação do leonismo em nosso país. Dentre estes, um destaque especial deve ser creditado ao festejado CL Alexandre Campos da Costa e Silva, EGD 1971/72 do Distrito LC-1, que vive e conta Armando Fajardo em sua obra “Uma história do Leonismo no Brasil”, secundado pela sua CaL Teresa Costa e Silva, EGD 1995/96 do mesmo Distrito e radicados no Rio de Janeiro. Foi de Alexandre e Teresa que recolhi algumas pérolas para esta homenagem a Armando Fajardo.

Conheci que Fajardo nasceu no Estado do Rio de Janeiro, na cidade de Santa Maria Madalena, em 12 de outubro de 1893. Que seu pai era tabelião e seu avô fazendeiro. Que era um menino sonhador e viveu no interior até os 13 anos, onde seu maior prazer era armar arapucas para pegar inhambus e juritis, para apreciá-los em seus viveiros, mas sem jamais utilizar um estilingue. Que depois dos 13 anos aventurou-se sozinho para o Rio de Janeiro a fim de continuar seus estudos. Que fez o secundário no Internato Pedro II, onde se destacou na área esportiva. Que, depois, iniciou seus estudos na medicina, mas abandonou o curso, desviando-se para a advocacia, que era o seu verdadeiro objetivo.

Que socorria seus companheiros de estudos e boemia em apertos financeiros, valendo-se dos recursos que lhe eram fornecidos pelo pai, ao qual fez questão de ressarcir tão logo se ajeitou no primeiro emprego, não por orgulho, mas por questão de princípios. Que esteve entre a vida e a morte em 1921, face a um apendicite supurada, que o deixou de “molho” por cerca de dois anos. Que a doença atrasou seu casamento com a amada Blanche “Branca” Tavares, em 1924, e de cuja união não resultou filhos.

Que entrou para o serviço público e, por reconhecida capacidade, ocupou vários cargos importantes até chegar ao Ministério da Educação, só não ocupando o cardo de Ministro por motivos pessoais. Que era detentor de vários títulos e cargos importantes, tanto no Brasil como no exterior. Que, entre todos os títulos, o que mais o orgulhava era o de “Fundador do Leonismo no Brasil e Leão no 1 da nossa pátria”. Que no leonismo ocupou nos planos distrital e internacional os mais destacados cargos: o primeiro Governador do Brasil e membro da Junta de Relações Internacionais.

Que na 11ª Convenção Nacional dos Lions Clubes do Brasil, realizada em Salvador, em maio de 1964, recebeu o título de “Patrono do Leonismo Brasileiro”. Que faleceu em 13 de junho de 1969, aos 76 anos, e foi sepultado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

O ingresso de Armando Fajardo no leonismo foi grandemente influenciado pelo uruguaio Pedro Berro, de quem era particular amigo e, coincidentemente, tinham a mesma profissão e os mesmos interesses (advogados e turfistas). Fajardo estava em Montevidéu, em dezembro de 1951 (era Diretor do Jockey Clube Brasileiro), assistindo uma prova que levava o seu nome, numa homenagem por haver pacificado os turfistas uruguaios, ao lado de Pedro Berro, quando soube da existência do Clube de Leões da capital uruguaia, cujo fundador e presidente era seu estimado amigo.

Fajardo conheceu as finalidades e beleza dos propósitos da Associação de prestar serviços desinteressados e da congregação humana, sentindo, de imediato, que tudo aquilo era inerente aos sentimentos que sempre nutriu, ou seja, um Leão que era e seria. Sentiu, ainda, o desejo que o amigo Berro tinha em expandir o leonismo para o Brasil. Foi a senha para que inúmeras reuniões, com idas e vindas, fossem realizadas entre Fajardo e inúmeros dirigentes leonísticos da América Latina. Fajardo aceitou o desafio de trazer o leonismo para o Brasil, embora ações nesse sentido já estivessem sendo entabuladas na cidade de São Paulo.

Depois de correspondências mantidas com dirigentes da Associação Internacional, Fajardo iniciou o movimento para agregar as pessoas que seriam os fundadores do Clube de Leões do Rio de Janeiro. Após grande esforço, conseguiu juntar vários amigos e pessoas influentes. No dia 16 de abril de 1952, às 12 horas, em concorrido almoço no Jockey Clube Brasileiro (Av. Rio Branco 137/139), no Rio de Janeiro, foi fundado o primeiro Clube de Leões do Brasil, tendo como presidente Arnaldo de Morais (Fajardo não aceitou a presidência) e um corpo associativo de 40 fundadores.

Posteriormente, na medida em que tomava providências para a expansão do leonismo no Brasil, Fajardo disparava medidas para organização de novos Clubes (três meses depois foi fundado o Clube de São Paulo), administração e adaptações que se fizessem necessárias, pois tudo aquilo que na ocasião era normatizado pela Associação Internacional contava apenas com literaturas em inglês e espanhol. Fajardo manifestava seu descontentamento quanto a isso, pois certas expressões “Domador” e “Tuercerrabos” do Informe de Organização dos Clubes, impressos em espanhol e traduzidas de “Temer” e “Tailtwister” do inglês, foram adaptadas para Diretor Social e Diretor Animador. Fajardo adaptou também a expressão “Jefe de Zona” (do inglês Zone Chairman) para Presidente de Divisão.

A partir daí, modificações radicais foram sendo introduzidas. No dia 2 de julho de 1952 foi discutida a proposta para que adotasse o nome de Lions Clube ao invés de Clube de Leões. O acróstico em uso na ocasião, que era Liberdade, Entendimento, Organização, Nacionalidade, Esforço e Serviço (retirado das letras que formavam a palavra LEONES em espanhol) foi substituído por Liberdade, Inteligência, Ordem, Nacionalidade e Serviço. O primeiro Distrito Provisório “L” Brasil foi iniciado no ano leonístico 1953/54, tendo Fajardo como Governador. A partir de então, o leonismo brasileiro deslanchou e transformou-se na pujança que hoje domina o território nacional.

Fajardo era um homem rígido no cumprimento do dever e exigia que ao Lions fosse dado o respeito que merecia. Para ele, leonismo era uma questão de honra. Aqueles que com ele conviveram atestaram a seriedade que dava ao movimento, do repúdio que mantinha por determinados comportamentos e da sua franqueza, duríssima, ao combater Companheiros que a todo custo queriam fazer do leonismo um trampolim para suas pretensões pessoais ou àqueles que, sem competência, queriam chegar aos cargos mais altos.
A semente de tudo foi Armando Fajardo, cidadão e chefe de família exemplar, a cuja visão, entusiasmo e amor à nossa causa dedico esse modesto tributo.

CL Antonio Domingos Andriani
EGD 1997/1998 – Distrito LC-6 Lions Clube de Ribeirão Preto
Email: Andriani.ada@terra.com.br